Sobre ter vinte e tantos anos...

Tudo começou naquele fim de semestre, quando a vida estava boa, mas algo faltava. "Vou estudar em Paris" - pensei. E começou a longa jornada que hoje me levaria a este lugar. Um mês depois, sentada à beira da janela refletindo, depois de um vinho e dois cigarros, quando, por um instante, me veio à mente precisamente isto: "Um sentimento que não defino é este que me toma o peito agora, ao perceber que eu poderia estar em qualquer outro lugar, mas estou aqui por mérito de minhas próprias escolhas e que devo lidar com todas as consequências desta decisão, sem fraquejar, sem lamentar. Eu quis. Eu quero. Eu estou aqui. Será que esta consciência me credencia para a vida adulta?". Eu, finalmente, estava em Paris...

Dia 15 de janeiro, o dia em que entrei no avião rumo ao desconhecido, não era um dia propício para partir. Naquela manhã eu acordei e fui tomar café na padaria com o meu namorado, depois de uma despedida no bar com os bons amigos. Em seguida, minha primeira parada antes do aeroporto foi o hospital, mais especificamente, uma maternidade. Explico: minha sobrinha, Alice, iria nascer naquele dia. Partidas já não são fáceis, mas são menos ainda em um dia tão feliz quanto este. Eu arrisco dizer que é, inclusive, cruel. E os dias que antecederam esta partida foram bastante difíceis de lidar. Eu sabia que teria uma batalha para enfrentar. E é incrível como minha mãe percebe tudo o que eu sinto. Eu me lembro de sentir o olhar dela sobre mim, reconhecendo a minha batalha interna para conseguir sair dali. Virar as costas, partir. Pela segunda vez ela teve de ser mais forte que eu e me dizer: “vai, pega suas coisas, não se esqueceu de nada?”, uma espécie de permissão inconsciente para me dizer que tudo bem ir embora naquele momento. O momento em que todos se encontravam para celebrar a chegada da Alice. Por vezes eu pensei: ela chega, eu vou embora, a sincronia da vida combinando os acontecimentos. No coração da minha mãe isso significa uma perda, mas um ganho?

Não foi a primeira vez que eu tive de me despedir da minha família, ainda que temporariamente. E despedidas são sempre muito difíceis para mim. Eu não sei quanto a você, mas eu vivo um eterno descompasso. Minha cabeça quer uma coisa e meu coração tenta me desviar para outro caminho; ou então meu coração está repleto de inspirações, mas minha cabeça insiste em me chamar para a realidade. Não é fácil! Mas eu sempre fui assim. E digo isto porque ao mesmo tempo em que eu sempre quis muito partir, eu também quis muito ficar.

Um poço de contradições eu diria...

Mas penso que esses desencontros sempre foram de extrema importância para o meu crescimento. Na minha vida, fui me acostumando aos poucos com o fato de que nada saía exatamente como eu planejava. Porém, nada do que eu pudesse reclamar, pois, no final das contas, tudo acontecia melhor ainda do que eu poderia desejar.

Aos 18 anos, quando passei no vestibular, me senti parcialmente condenada ao interior paulista, e eu sempre quis sair dali. Meu objetivo era São Paulo, 430km - suficientemente longe e perto ao mesmo tempo. Após algumas tentativas, vi este plano de me mudar para a capital ser adiado. Tudo bem. Vivi os quatro melhores anos da minha vida ali naquele mundo universitário paralelo. 

Então, aos 20 anos de idade, eu finalmente consegui: fui morar cinco meses em Lisboa. Este foi o meu primeiro grito de liberdade. Eu, que nunca havia saído de casa antes, a não ser para passar as férias na casa dos avós ou dos tios, estava indo para outro país.



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